Na poeira do Cerrado

Serra da Canastra, 11 junho de 2010.

Buracos, grandes ladeiras e uma poeira que não nos permite enxergar além de 3 metros à frente fazem nossa aventura de viver sobre quatro rodas.

Foram 90km por estrada de chão contornando o Parque Nacional da Serra da Canastra, na tentativa de evitar a subida do Rolador, no portão principal, localizado no município de São Roque de Minas, em Minas Gerais. Íngreme, estreita, com curvas acentuadamente fechadas; no lado esquerdo, a montanha se ergue majestosa; no direito, um belíssimo precipício com cachoeiras que se deixam ver, como se fossem cabelos claros rolando pelo dorso queimado das encostas, terminando num poço escuro no meio das pedras, emoldurado por árvores cinzas de tronco retorcido, típicas do cerrado. Bela e perigosa! Nosso carro teria dificuldades para vencê-la, por isso optamos por contornar a serra e fazer a entrada no Parque Nacional pela cidade de São João Batista da Serra da Canastra.

A rota São Roque de Minas-Desemboque prevê um pernoite dentro do parque da Serra da Canastra, no portão que dá acesso à cidade de Sacramento. Não há postos de abastecimento nesse percurso — diga-se: a travessia do parque é quase solitária, trafegam poucos veículos por aqui —, o que nos obrigou a abastecer a kombi em São João, com litros de gasolina vendidos em garrafas pet.

Ah! Nesse momento, quando experimentamos uma sensação de estranheza pelo diferente, foi que, já no carro, Franco começou a cantarolar baixinho a música “Metáfora”, de Gilberto Gil.

Prosseguimos a viagem terminando o trecho que sabemos de cor, em voz meio desafinada, tentando alcançar o tom de Gil, deixando que o sacolejo kombi e o vento marcassem o ritmo, acompanhado por leves toques no painel do carro.

Nosso carro-casa roda carregado. Leva em torno de 2,5 toneladas de peso, feitos de um pouco da nossa história em livros e fotografias, objetos, roupas e presentes dos quais ainda não nos desfizemos. Outro tanto são sonhos — materializado em objetos-instrumentos-de-trabalho — de querer levar um pouco de cultura, literatura, cinema e fotografia para crianças do interior do país, que resultam em centenas de livros infantis, porta-retratos 10×15 imantados, que pesam toneladas. Projetor de filme, cabos, mangueiras, DVDs, gerador de energia portátil, tela de projeção, câmeras digitais, coisas que garantem uns bons quilinhos para nosso querido carro-casa. Isto, somado a duas caixas d’água, colocadas na parte inferior do veículo, mais cama, fogão, cooler para bebidas, mesa, cadeiras, barracas… Fizemos do nosso carro-casa, a lata onde tudo cabe. Na Alice, cabe o incabível.

Deixamos São João rumo a Desemboque. O sol do meio dia cria feixes de luz que se misturam à poeira do caminho, dando um ar poético à paisagem. Veados campeiros pastam tranquilamente, escondidos atrás da cor rósea do capim-gordura. Parecem não se importar com nossa imersão em seu habitat. Olham-nos curiosos como a testemunhar o começo da aventura deste casal. A gente silencia, tenta se aproximar para conseguir uma imagem próxima, eles continuam ali, como a nos esperar. Mais um passo e zupt! Somem mata a dentro em velocidade delirante.

Estradas do Parque Nacional da Serra da Canastra

O cerrado, aos poucos rouba-nos de nós mesmos, dos agitados dias que antecederam nossa saída de São Paulo.  Tudo parece aquietar-se agora, embora, cá por dentro, haja um turbilhão de perguntas num vai-e-vem sem fim.

Alice na vegetação do cerrado de Minas Gerais


3 Comments

  1. ivan
    Posted 13/06/2010 at 7:07 pm | Permalink

    Sou de Pouso Alegre MG,
    estou de olho nessa viagem
    De vocês,muito legal mesmo
    Um abraço
    Ivan

  2. Christie
    Posted 23/07/2010 at 12:08 am | Permalink

    Querida Alice! Que maravilha tudo o que tem vivido, hein? Fico muito feliz por você! Bjs, Chris.

  3. Alice
    Posted 25/07/2010 at 2:21 pm | Permalink

    Oi, Christie!

    Puxa! Bem legal mesmo! Olha fiquei super feliz com seu recadinho. Me visite sempre tá?

    Bibiii, Fommm, fommm!

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