De olho rasgado

Eu sei que a caatinga é uma mata difícil, fechada, com espinhos rasos no chão e com árvores feitas de espinho como a jurema, a favela e outras. Eu também sabia que devia adentrá-la com cuidado, procurando proteção, mas como o que se sabe nem sempre se aplica…

Hoje fomos fotografar uma lida com gado (vaqueiros encourados, entram na caatinga para buscar um boi bravo, ou que se perdeu). Entram montados a cavalo e passam com velocidade sob arbustos muito baixo . Não usam laço, para pegar o animal fujão, montados no cavalo lançam o corpo sobre o boi, mantendo-o preso no abraço do vaqueiro. Outros parceiros se aproximam, cercam o animal e prendem-no com cordas. Neste momento, abraçado ao animal o vaqueiro canta, como que para acalmá-lo. Um espetáculo lindo de se ver! Todo vaqueiro traz marcado no corpo, as cicatrizes desse trabalho e a exibem com orgulho e honra.

Inês e Franco estavam lá, assistindo admirados e fotografando a beleza dos movimentos dos vaqueiros sobre o touro, quando descuidadamente, Inês ergue os óculos de sol e sai no meio da caatinga tentando me aproximar da cena para fotografa-la. Foi um descuido e zapt! um galho seco de jurema (cheia de espinhos) atinge seu rosto e entrou olho a dentro, ferindo-o no canto direito.

Ela permaneceu ali, entre o vaqueiro e o boi até que tudo terminasse. Depois veio olhar a machucadura que mais tarde se transformará numa cicatriz, que por sua vez também contará uma história.  Foi medicada, está em repouso, com tampão por 24h. Eu cá fico a pensar: Que sentido teria a história se não houvessem cicatrizes para contá-la?

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