Na Pedra do Reino

Coisa linda é o sertão!

Feito aparentemente de quase nada,  dono de quase tudo, senhor de grandes histórias. No sertão vive o Vaqueiro, o Conselheiro, O Beato, Padres Santos. Sertão é paz, é romaria e penitência,  revolução e guerra. Cenário de idéias e de extermínio das idéias. Terra de coronéis, terra onde o Cangaço nasceu, cresceu e morreu, terra de histórias fortes, cenário de muitos abris que se despedaçaram. Terra que guarda as relíquias mais antigas de um tempo que o homem ainda não era e do tempo que sendo passou a habitar nosso chão, e a desenhar em nossas pedras, deixando registro de suas primeiras marcas na história.

Sertão, grande sertão, a maior parte sem veredas de água, com estreitas veredas abertas, pelo vaqueiro e pelo agricultor, caatinga adentro.

Neste sertão aparentemente tão árido, reinam princípes e princesas. Reinos escondidos em pedras esperam pela hora de acordar do encanto que os fez adormecer. Alguns reinos vivem escondidos e silenciosos como as rochas que os guardam e protegem, mas há um, este não, o Reino da Pedra Encantada, este mesmo adormecido, arrancou seguidores, que vieram guardar seu rei soberano. Aos pés da Pedra do Reino fizeram moradia, criaram seu reino, escreveram sua história. Foi quando o Senhor do reino sem encanto, com seu soldados, do reino de verdade, enviou suas tropas que, sem piedade, massacrou os sertanejos todos que ousaram crer e viver na Pedra do Reino.

Estou aqui, aos pés da Pedra do Reino, pensando porque o poder instituído tem tanto medo das idéias simples, especialmente aquelas que ousam acreditar que existe mais vida e esta possível apesar da falta  d’água. Este texto é uma homenagem aos mortos no massacre da Pedra do Reino, anos depois em  Canudos, ba Baia, mais tarde no Calderão, em Crato no Ceará.

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De olho rasgado

Eu sei que a caatinga é uma mata difícil, fechada, com espinhos rasos no chão e com árvores feitas de espinho como a jurema, a favela e outras. Eu também sabia que devia adentrá-la com cuidado, procurando proteção, mas como o que se sabe nem sempre se aplica…

Hoje fomos fotografar uma lida com gado (vaqueiros encourados, entram na caatinga para buscar um boi bravo, ou que se perdeu). Entram montados a cavalo e passam com velocidade sob arbustos muito baixo . Não usam laço, para pegar o animal fujão, montados no cavalo lançam o corpo sobre o boi, mantendo-o preso no abraço do vaqueiro. Outros parceiros se aproximam, cercam o animal e prendem-no com cordas. Neste momento, abraçado ao animal o vaqueiro canta, como que para acalmá-lo. Um espetáculo lindo de se ver! Todo vaqueiro traz marcado no corpo, as cicatrizes desse trabalho e a exibem com orgulho e honra.

Inês e Franco estavam lá, assistindo admirados e fotografando a beleza dos movimentos dos vaqueiros sobre o touro, quando descuidadamente, Inês ergue os óculos de sol e sai no meio da caatinga tentando me aproximar da cena para fotografa-la. Foi um descuido e zapt! um galho seco de jurema (cheia de espinhos) atinge seu rosto e entrou olho a dentro, ferindo-o no canto direito.

Ela permaneceu ali, entre o vaqueiro e o boi até que tudo terminasse. Depois veio olhar a machucadura que mais tarde se transformará numa cicatriz, que por sua vez também contará uma história.  Foi medicada, está em repouso, com tampão por 24h. Eu cá fico a pensar: Que sentido teria a história se não houvessem cicatrizes para contá-la?

Depois de Petrolina…

… Depois de Petrolina, um descanso em Juazeiro. Ah! Petrolina e Juazeiro! Estar sob a sombra de uma árvore gigante, à beira do São Francisco, olhando suas águas cristalinas e bem lá no meio, uma estátua do “Nego d’água”, caboclo matreiro que cuida o rio e aterroriza pescadores e viajantes. Por causa dele, os barcos que antigamente navegavam o São Francisco, traziam uma carranca na proa, invenção dos Guaranis para assustar o “Nego d’água”. E não é que o danado tinha mesmo medo das carrancas? Contam por aqui que ele não atacava as embarcações que as traziam na proa. Urra!

Hoje, as carrancas do São Francisco, continuam cumprindo sua função: sairam das proas das embarcações e passaram a enfeitar as moradias das pessoas. Os artistas que as fabricam afirmam que elas espantam mal olhado.

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Adeus, meu Velho Chico!

Bibi!! Fom! Fom!

Estamos de luto

O Projeto Histórias de Alice está de luto

http://br.noticias.yahoo.com/homens-armados-matam-cacique-mato-grosso-sul-214419417.html

Nossa solidariedade ao povo Kaiowá Guarani. Em maio estivemos em Amambai.

Adivinha onde estou?

Nem imagina, né? Pois lhe digo: rodava o mundo quando fui sentindo crescer dentro de mim um rio de saudade. Um rio cuja água tem a cor verde azulada do mar, mas não é mar. Adivinhou? Ah! sim! É o São Francisco. Nas voltas que a vida dá, tô eu cá, a beiro do Velho Chico, sentindo a brisa fresca que emana de suas águas e o calor próprio da beira rio.

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Ah! São Francisco, meu velho! Nesta viagem vi você lindo e também assoriado. Vi orlas lindas e orlas descuidadas. Visitei as barragens que alteraram seu jeito de ser…, vi você raso e profundo. Escutei sobre o Nego d’água e seus encantos todos. Meu velho rio, quanto mais conheço, mais o amo.

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Bibi!! Fom! Fom!

Na pré-história de nossa história

Pobre Cabral! Avistou o Monte Pascal pelos idos de 1500 e achou que tinha descoberto o Brasil! Pudera! Acho que ele nem imaginava que há muito, muito tempo antes dele, outros povos haviam chegado nesta terra e feito dela sua casa. Não, não estou me referindo aos índios, estou falando dos primeiros grupos humanos de que se têm registro na história das Américas.

Pois é,  bem no comecinho da história do homem, grupos humanos migraram da África para as Américas e aqui permaneceram deixando vestígios de sua passagem. Esses registros estão preservados no Parque Nacional da Serra da Capivara, onde há a maior concentração de pinturas rupestres do mundo. Elas são lindas! Desenhos elaborados contam a história desses homens e mulheres num grande paredão, como se fosse um quadrinho.

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Além dos sitios arqueológicos, a paisagem do parque é  maravilhosa, vale o investimento de uma viagem. No meu caso, valeu inclusive toda a estrada ruim que peguei na viagem até aqui.

Nossa visita à Serra da Capivara começou no Sítio do Mocó, dormimos numa pousada do Parque. Depois, seguimos para Raimundo Nonato, onde fica o Museu do Homem Americano: outro espaço que vale a visita.

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Estar nesses lugares, olhar uma história de aproximadamente 100 mil anos é muito, muito emocionante!

Bibi!! Fom! Fom!

Cultura africana – Riacho dos Negros

Que a sinhora pensa que é quilombola? Foi a pergunta que chegou seca, vinda da boca do Seu Sérgio, logo que avistamos as primeiras casas do quilombo.

Sem saber porque me perguntava aquilo, a Inês foi respondendo meio desajeitada, sem saber se a resposta agradaria o ouvinte:

Quilombola são descendentes dos povos africanos forçosamente trazidos ao Brasil, como escravos. Hoje, muitos anos depois, o Brasil reconhece a cultura afrodescendente e o direito desses povos à terra, por isso demarca terras de antigas fazendas escravotas, ou lugares que serviram de refúgio para os que ousaram fugir da escravidão, como terra quilombola.

O interlocutor sorriu e de cima da bicicleta nos levou até a comunidade. Foi um entardecer lindo, num lugar distante, feito de silêncio, pedras e muita história que logo, logo venho aqui só pra te contar.

Quilombo Riacho dos Negros

Para chegar ao território quilombola a gente passa por uma estrada longa, estreita, feita de pedras e areias. Poucos carros passam por ela.

Estrada para o Riacho dos Negros

Nosso abraço carinhoso para crianças e adultos, do Riacho dos Negros.

Bibi! Fom! Fom!

Rodando pelo Piaui

Urra! Peguei uma estrada ruim demais! A cada metro um buraco enorme que, sem exagero, quase me cabia dentro. Arre! Era uma rodada e um pulo no buraco. Meus parafusos sairam todos do lugar. Ai! Ui! Mas o pior foi que numa altura da estrada, o bagageiro abriu e ploft! Cairam coisas para fora, uma delas foi a mochila do Franco cheia de coisas legais, tipo filme, livros, revista!

Chico que olhava tudo, gritou. A Inês olhou para trás e disse: Pare o carro, o bagageiro abriu e sua mochila caiu. Franco ficou branco. Olhou pelo retrovisor viu um motoqueiro juntando a mochila. Ficou apavorado.

Ines desceu correndo e gritando: moço! Moço! Esta mochila é nossa.

Enquanto isso, fiz a manobra de volta e trouxe Franco e o Chico para perto da Inês que tinha alcançado o motoqueiro, um senhor muito simpático que ficou esperando nossa chegada.

Tranquilizou os viajantes dizendo que só havia caído aquilo mesmo, ele vinha logo atrás do carro quando o bagaeiro abriu e distribuiu bagunça pela estrada.

Foi até engraçado aquela cena desesperadora dos meus tripulantes. O preju teria sido bem grande se a mochila tivesse viajado nas costas do motoqueiro da estrada emburacada. Inda bem que o rapaz era dessa gente boa, muito boa, que todos os dias cruzam a estrada de nossa viagem. Fui! Bibi! Fom! Fom!

De volta para o Piauí

Em setembro cruzei pela primeira vez a divisa de estado entre Maranhão e Piauí, saí quase dentro de Teresina. Então, invés de descer, subimos, subimos, chegamos a Paranaíba, visitamos o litoral, contemplamos a maravilhosa paisagem ao entorno do Delta, fomos até o Ceará. Viajei do litoral para o Sertão Central e de lá para o Cariri de onde saí hoje. Sabe para onde voltei? Para o Piauí. Agora estou em Picos e vou viajar pelo Sul do do Estado. Depois de Raimundo Nonato, imagine você, voltarei para Remanso na Bahia e ah! Vou passar pertinho de um rio que gosto muito, o São Francisco.

Bibi! Fom! Fom!

Penitentes de Genesaré

Ontem conheci um grupo de senhores, da irmandade de Nossa Senhora, que no período da quaresma praticam a penitência corporal. Ficamos um dia e uma noite, aprendendo sobre sua vida, suas histórias e sua cultura.
À família Duarte e ao seu Zeca Pinheiro, nosso abraço

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Bibi! Fom! Fom!