RouBadas

AUSÊNCIA DE COR COM POUCO SABOR

Desarranjo não combina com comida, em geral, a gente passa o tempo tomando líquido. Não foi diferente com nossa dieta: liquido, liquido e líquido. Quando demos os primeiros sinais de melhora, Franco arriscou comprar um purê de batatas. Deu certo. À noite, saimos a procura de algo simples como um pouco de arroz acompanhado de um peito grelhado, para encorporarmos um pouco a dieta. Como estávamos numa pousada a beira do mar, não tínhamos como preparar o alimento.

Enfim, encontramos um restaurante a beira mar, que nos serviu meio peito cortado ao meio, e um bife de boi também cortado em dois pedaços, acompanhado de uma porção de arroz. O prato não tinha beleza, nem cor. O arroz com gosto de aquecido, uma vez que não fazia parte do cardápio do restaurante.

Comíamos devagar, tentando não provocar novo tsunami digestivo, quando a dona do restaurante, veio a nossa mesa, colocou as duas mãos sobre a mesa, inclinou-se alongando costa e traseiro para trás, ficando a altura do nosso prato. Olhou-nos e perguntou:

_ Mas é isso que vocês vão jantar?

_ É. Respondemos desconhecendo quem era a estranha atrevida.

_ Mas é muito feio, não tem cor nenhuma. Não querem feijão, um molho? Isso está muito seco.

_ Não.  Estamos bem. Agradecemos gentilmente. A dona nos deixou.

Quando perguntamos se preparariam um arroz com um filé de frango, nos esquecemos de perguntar pelo preço… Ai, vem a parte melhor: quanto você acha que custaria uma porção de arroz acompanhado de meio filé de frango?

Pois é. Nossa comida seca e sem cor custou R$ 20,00.

Caro ou barato? Depende desde onde olhamos: se, pensarmos que a barraca resolveu um problema nosso, o preço não é alto. Se pensarmos no custo dos ingredientes do jantar, na qualidade da preparação,  somado ao serviço. Foi caro, muito caro.

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COISAS INESPERADAS

Por vezes achamos que as pessoas podem ler por dentro de nosso olhar, conhecer nossa transparência, saber que de modo algum lhe faríamos mal.

Nosso olhar de fotógrafos busca o belo na diferença de tudo o que desconhecemos, na originalidade da vida simples das pessoas que vivem no Brasil de dentro.

Certo dia, rodando pelo sul do Piauí, paramos diante de uma placa para fazer um registro para o diário de bordo. Estávamos ali, quando de repente, nosso olhar pousou sobre uma linda senhora que com um grande chapéu de palha, quebrava madeira seca na caatinga para quentar o fogo.

Olhei para ela e sorri. Sempre que faço contatos mediados pelo olhar e pelo sorriso, me sinto como um ser estranho, que chega no acaso batendo na porta da vida de outra pessoa, pedindo-lhe que me acolha como peregrino, que me deixe entrar e quem sabe ficar.

A simpática senhora, aparentemente sem medo, me sorriu de volta. O pacto estava selado. Troquei uma ou duas palavras e ela respondeu educadamente.

Perguntei-lhe se poderíamos fazer um retrato seu. Ela disse que sim, mas creio que não entendeu o que dissera.

Franco desceu com a câmera enquanto eu assistia a cena mais de longe. Não adepto de fotos por tele,  para fotografá-la precisava escalar o barranco, passar por baixo da cerca e entrar na caatinga, onde ela quebrava lenha.

Conversando para manter o contato, ele tenta a primeira vez, mas o barranco é íngreme e ingrato não permite a passagem. A mulher assiste a tudo, aparentemente tranquila.

Quando Franco rompe a barreira do barranco e está perto de chegar até ela. A camponesa larga o feixe de lenha e vem na direção dele e pergunta:

_ O senhor vai me pegar? O Senhor vai me pegar?

Dito isso foge, caatinga a dentro, assustada. Franco fica atônito, sem entender nada…

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UM DIA DAQUELES!

Desarranjo intestinal, diga-se de passagem, não é uma boa coisa para ocorrer na Alice. O carro é equipado com banheiro quimico, mas meu amigo, o espaço da casa toda somando quarto, banheiro e cozinha é de aproximadamente 4 x2 metros. A área livre onde fica instalada a cozinha é de aproximadamente  1 metro. Por isso, esse negócio de desarranjo é bom que passe longe, uma vez que, instalado o danado do intestino põem-se a funcionar sem hora de parar.

Mas há dias, na vida da gente, que as regras caem por terra, o bom senso também. Aí a desordem se  instala e… Nossa história começa assim:

Estávamos na Bahia da Traição, parado na barraca do Dingo, atrás de fotografar o mangue e a cata de caranguejos. Nosso almoço foi um aratu ao coco, acompanhado por arroz branco. Uma delícia! À tarde entramos no mangue e voltamos carregados de dezoito caranguejos. Nossa vontade era nos fartar do pobre do bichinho.

Assim fizemos, pedimos ao Dingo que preparasse uma corda e meia dos bichinhos, pois nossa fome era voraz. Feito isso, sentamos à mesa e nos fartamos. Dos dezoito, comemos oito. Ora só, que matemática estranha, embalada pela boa conversa não nos demos conta que outros dez bichinhos ainda estavam na panela. Franco reclamou: _ Ainda estou com muita fome. Pedimos o cardápio e e veio sugestão do Dingo:  _ Provem um camarão à francesa, é especialidade da casa.

Urg! Que ideia! Pedimos o tal à francesa e… Definitivamente camarão com ovo não combina. O camarão veio acompanhado do lembrete que ainda restavam 10 caranguejos na panela. Lamentamos, mas decidimos abdicar dos animais, fruto de nossa caçada, para comer o camarão a preço do nosso bolso.

Bem alimentados nos retiramos para o aconchego da nossa kombi. Assistimos um filme e dormimos ali mesmo, ao lado da barraca. Dingo nos ofereceu um chuveirão de praia e para outras necessidades tínhamos o banheiro da barraca.

Senhores, pelas 4 manhã acordamos com um tsunami intestinal. Franco foi o primeiro, eu logo em seguida. Fígado e estômago resolveram completar a festa da desordem, uma vez que a desgraça nunca anda desacompanhada.

Ah! Você pode imaginar o que é ter um desafeto intestinal em banheiro público? Arre! Nem sentar no vaso pode… E ainda tem que cuidar para que o tal permaneça em perfeita ordem, na desordem que já está posta.

Desse modo, nossa aventura por uma das regiões mais belas de pescadores foi interrompida. Acompanhados do incerto, seguimos para João Pessoa, capital da Paraíba.

No caminho, longas paradas nos canaviais feitas às carreiras: _ Pára! pára! Não vai dar prá esperar! Enquanto duraram os canaviais foi bom. Mas depois… Deitada no banco de trás, vinha dando meus jeitos de contornar o desafogo intestinal. Urra!

Chegamos a capital! Eu já com febre e Franco um pouco mais forte, administrando diarréia, direção em busca de  um lugar onde nos instalar.

Que difícil aperto, bem no fim do começo!

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QMICO!

Morar num carro, viver na estrada tem lá suas exigências: uma delas é que a roupa deve ser prática, fácil de lavar, não volumosa. Não há espaço para diversidade de roupa. Ruim, muito ruim, porque além de quê, as pessoas apreciam nos ver bonitos, valorizam nossa importância social pela marca que vestimos, pelo carro que usamos etc., etc., até aqui nenhuma novidade.

Assim, vestidos para aventura chegamos certa vez a uma cidade. Fomos reconhecidos e muito bem recebidos. Em nossa despedida nos fizeram um convite para um encontro, que entendemos seria uma cervejinha de fim de tarde domingueira, dessas entre amigos, prá jogar conversa fora. Nem nos preocupamos com nossos trajes.

Cara, quando chegamos ao local! QMico! As mulheres estavam lindas, socialmente vestidas. Éramos esperados com um jantar. A única coisa que não caia bem naquele lugar eram nossas roupas, penteado, falta de maquiagem. Desespero total feito de corrida para o banheiro, tentativa de melhorar o que não pode ser arrumado. Desajuste! Vergonha e Micão. QMico!

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Um coelho branco apareceu e…

… Roubada, pura roubada!

O sol nascia na calorosa manhã de sábado. Franco e eu nos preparávamos para pegar a estrada, nossa intenção era fotografar uns vilarejos ao redor de Tocantinópolis. Passamos no mercado para pegar água e algumas frutas para a viagem. Estávamos entrando no carro, quando fomos abordados por um senhor simpático e apressado, feito coelho branco de colete, relógio e cartola.

“Onde vocês vão se apresentar? Onde vocês vão se apresentar?” Disse o gentil senhor, acompanhado de uma jovem garota, de aproximadamente, 12 anos.

Franco sorriu para o visitante e se explicou: “Não vamos fazer apresentação. Somos fotógrafos e estamos aqui para conhecer pessoas que trabalhem com o coco babaçu!”

” Querida, eles vão passar em frente a sua casa, em Wanderlândia!”  Disse, o senhor, olhando para a menina

“Wanderlândia? Não, não, não vamos.” Respondeu a Inês.

“Vocês vieram conhecer o babaçu e não foram a Babaçulândia? Como pode?” Indagou nosso interlocutor.

“Se querem conhecer o coco babaçu têm que começar por Babaçulândia. Lá a cidade vive disso!” Dizendo isso, tomou o mapa das mãos da Inês e foi logo indicando o caminho. Por fim, concluiu: Estou falando isso, porque pertenci ao exército, trabalhei na Transamazônica e conheço a região como a palma da minha mão”…

Depois no carro, Franco e eu nos olhamos e decidimos: vamos atrás dessa informação.  Mas que roubada!

O que valeu na viagem foi o aprendizado e as belezas naturais vistas no caminho: Coisa de Tocantins! Lindo de morrer.

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Quando o melhor não é a concessionária

Sempre soube que consertar o carro em concessionária sai um pouco mais caro que em oficinas não credenciadas. O que eu não sabia é que o preço das peças chega a ser 2 vezes mais que as compradas em auto-peças (estou falando de peças originais, nada de capetinhas).

Em Tocantins a concessionária nos pediu, por duas peças Varga, o valor de R$ 950,00. Detalhe: teríamos que aguardar dois dias para a chegada da peça, que, segundo eles, não estavam disponíveis na capital. Recem-saídos da referida e bem indicada concessionária, encontramos as peças por 300,00 com 15% de desconto sobre este valor. E a mão de obra? Na concessionária a hora sai por uns míseros 98,00. Todo o serviço na mecânica indicada pela autopeças ficou por 80,00, com garantia de serviço feito por mecânicos especializados em volkswagem.

O que é que pagamos quando levamos nosso veículo a uma concessionária?

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Equívoco médico

Depois de um  atropelamento ocorrido a 150 quilômetros de um centro médico por estradas de chão, digamos que a vítima, 12 horas após, chegue ao hospital ainda em estado de choque, querendo saber se além dos hematomas espalhados pelo corpo, houve alguma consequência mais séria. Precisa de conforto, afago, confiança.

Saúde é caso sério no Brasil todo. Mas neste especificamente, a Inês pagou R$ 150,00 pela consulta. O médico de plantão sequer tocou numa partezinha do seu corpo, alegando que se ela tinha chegado andando, descartava-se qualquer hipótese de fratura. Ouviu as queixas da doente que entre outras coisas, incluía dores no peito e fadiga. Sem tocar na vítima, pediu um raio x. Feito isso, doente sentada na mesa de exames, usou  o tempo para um acirrado discurso político que envolvia  a guerrilha do Araguaia, passava pelo massacre dos sem-terras de Eldorado do Carajás, culminando com a atual situação do garimpo em Serra Pelada.  Consulta mesmo… Ah! Essa deixa prá mais tarde!

A pobre vítima pagou mais R$ 300,00 por um raio X.  Deixou o hospital cheia de dores e com as mesmas dúvidas.

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Banheiro flutuante

Olha só, almoçar em restaurante flutuante seja no Rio Tocantins, Solimões, Amazonas ou Araguaia é um evento prá lá de sofisticado. Prá bem da verdade, quase nem se percebe o marejar do restaurante que flutua suavente provocando um leve e discreto movimento.

Mas agora, ir a um banheiro químico flutuante em terra firme, é roubada na certa.

Foi assim que aconteceu: chegamos em Chapadão do Céu, às vésperas da abertura do Parque Nacional das Emas. O dia seria marcado por um grande evento divulgando a parceria do parque com empresas produtoras de álcool.

Convidados pela Secretaria de Cultura, lá estávamos nós.  A exposição ao calor, bebendo água, tomando suco, não deu outra!  As necessidades básicas se manisfestaram: bexiga cheia, ardendo, gritando: “Não vai dá prá segurar”.  Jeito: procurar por um banheiro químico. Feios por fora, horríveis por dentro, mas são banheiros.

No apuro lá estava a Inês pronta para entrar no primeiro banheiro disponível, quando uma voz lhe chama: ” Senhora, por favor, use este banheiro aqui. Está mais adequado.” Para o banheiro indicado lá fomos nós.

Roubada!!!! O sanitário era um caixote elevado do piso principal, para usá-lo era preciso subir e ficar de cócoras.  O banheiro inclinado para frente, balançava e balançava… Impossível subir.

Bexiga apertada… Pernas quase cruzadas… Vamos tentar acerta o tal caixão de pé, sem subir no estrado. Roubada… Roubada… O líquido retido a custas de pernas fechadas, vaza desnorteado, enquanto o corpo tenta controlar a direção.

Resultado: pernas molhadas, bermuda respingada… E um evento recém começado.

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Confusão à primeira vista

Uma curva, duas curvas… Estrada estreita, subida e descida da serra; paisagem exuberante, tão linda que em alguns momentos ficávamos sem fôlego. Ah! isso acontecia taIMG_9845mbém por causa dos caminhões que quase se encostavam na kombi. Ui! Calafrios! Inda bem que os grandões estavam bem de freio.

Depois da Serra chega-se a Antonio Prado, a cidade mais italiana do Brasil. O casario conta pela arquitetura, a história dos primeiros imigrantes  vindos para  a região. A autenticidade arquitetônica e de costumes, rendeu para a cidade a  escolha para ser cenário do filme O Quatrilho. Tamanha beleza é  patrimônio histórico e cultural da humanidade.

Bem, essa história começa assim: chegamos a Antonio Prado perto das 16h procuramos a prefeitura que nos cedeu o estacionamento para colocarmos a Alice com permissão para pernoite. Depois fomos até o centro de cultura e turismo nos informarmos sobre a cidade e locais onde visitar. Estávamos tentando um contato mais próximo, que nos colocasse no coração dessa comunidade.

Saímos de lá com câmeras na mão, fotografando os casarios e as ruas.

FRanco estava barbudo e cabeludo, uma espécie de Bin-Laden alemão. Eu de bermuda, sandálias e cabelos despenteados e, confesso, sem corte.

Cópia de IMG_3301Foi um clic, dois clic e… Logo vimos parar um carro da polícia a uns 50 metros de onde estávamos. Dele desceu uma policial bonita de cabelos negros longos, fardada. Simpática, caminhou em nossa direção. Colocou-se atrás ao meu lado, numa posição que podia ver o LCD de minha câmera, uma compacta G11.

Adiantei-me: “Estamos atrapalhando o trânsito?”

Ela respondeu: “É telefonaram para nós… Vocês são?…

Respondi: “Um casal de fotógrafos em viagem pelo Brasil.”

“Ah! Sim”, respondeu ela, depois de confirmar a atividade pelo LCD da câmera. “Fiquem a vontade.” Completou.

Sorrimos meio sem graça ao ouvirmos o contato pelo rádio: “São só turistas.”

Olhamos-nos. Franco falou: “Estamos horríveis… Minha barba… seu cabelo…!”

Desligamos as câmeras e corremos procurar um salão de beleza. O primeiro, não quis nos atender, disse que estava sem horário para o dia e também para o seguinte. Caminhamos mais e encontramos uma simpática cabelereira que topou nos deixar em ordem.

Estávamos assim:

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Ficamos assim:

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Bendito seja Antonio Prado!

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Pãozinho Fantasma!

Estávamos nós no vilarejo de Desemboque em Minas Gerais. Desemboque já foi um lugar de grande importância, deu origem ao triângulo mineiro. Terra de muito ouro. Atualmente é um lugarejo com uma grande história e aproximadamente 12 famílias, 2 vendas, 2 igrejas, uma escola e um cemitério. Mas a vida no lugar é intensa!

Cemitério em Desemboque

Era nossa terceira cidade. À noite alguns poucos postes jogavam uma luz tênue sobre a grama e o caminho que separava uma casa da outra. Nessas horas colhíamos histórias assombradas, divertidas…

História vai, história vem, comecei a ficar meio impressionada com tanta assombração e…!

Estava em casa, pelas 15h preparando a massa do pão. Quando fui quebrei o ovo, Vupt! Ele subiu jogando-se sobre meu corpo e caindo no chão sem espatifar. Um calafrio percorreu minha espinha… Olhei para a cena e pensei: “estou impressionada demais!”  Respirando mais forte escolhi outro ovo, e quando o quebrei… ploft! Estava podre, completamente podre. Novamente senti um calafrio percorrer meu corpo.

Voltei-me para a massa de pão e ao olhar para o lado pequenas luzes brilhavam na parede. Assustei-me! Sai correndo, deixei o pão sozinho, que nem deu sinal de crescer.

Sem pão para o café da tarde, o jeito foi comer pão fantasma.